segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
A Fuga
No fundo dos seus olhos tudo parecia uma enorme calmaria, era possível ver a linha do horizonte, onde o céu se perdia no infinito. Mas isso era só no fundo. Era aquele milésimo de segundo até que a adrenalina faça efeito.
Ele não tinha tempo para tremer, seus músculos estavam rígidos. As mãos presas ao volante, e o pé direito a todo vapor pisava o acelerador. Quando a mão direita soltava o volante, o pé esquerdo pressionava a embreagem. Ainda não se sabe direito, mas de uma forma ou de outra aquilo já estava acontecendo há um bom tempo. Olhou para o banco do passageiro e viu um rosto conhecido com os dentes trincados. O pânico era evidente, aquela pessoa estava tão nervosa que se esquecera de até mesmo repirar.
Tudo isso durou um segundo. No próximo sentia uma batida na traseira do carro. Logo após vieram os tiros, olhou pelo retrovisor interno, só conseguiu ver um carro branco e o vulto de outro. A única coisa da qual tinha certeza era: Não posso parar. Saiu ziguezagueando naquela avenida. Com três faixas, nem tudo parecia fácil. Era fim de tarde. As pessoas pareciam estar voltando para casa, o movimento era enorme e o perigo também. não havia sinal vermelho que o fizesse parar, esperar ou se descuidar poderia significar a sua morte.
A pressão dos seus perseguidores era enorme, quase impossível de se controlar, num momento de escape tentou fugir a pé, mas foi em vão. Pela primeira vez a sorte esteve do seu lado. Encontrou uma carreta. Bem, para ele aquilo foi uma sorte, pelo menos desta vez estava num veículo mais forte que os seus inimigos, além do mais aquela pessoa que estava no carro e parecia ser seu amigo estava a salvo com ele. por um momento se preocupou com mais alguém que não ele.
Agora corria pela avenida fugindo dos carros, aquele sentimento de cuidado com o próximo estava mais amplo dentro dele. Não desejava fazer nenhum mal com as outras pessoas em seus carros.
Os dois carros ficaram em cada lado da carreta. Foi quando ele pisou no freio de uma só vez, fechou os olhos e rezou para a traseira não virar. Quando abriu os olhos seus perseguidores eram perseguidos. O carro que não reconhecera anteriormente e agora notara que era vermelho estava bem à frente pela esquerda. Seu motor parecia fraco o suficiente para não alcançar uma alta velocidade. Talvez por isso não tenha percebido a cor num primeiro mento. Logo ele acertou o carro em sua traseira, impossibilitando que ele continuasse.
Para chegar até o branco teve de aumentar a velocidade. Para este só teve uma saída. Encostou em sua traseira, e levou-o a bater na parede de um armazém.
Agora mais tranquilo, a carreta foi abandonada e seguiram a pé. Ele não sabia para onde, entretanto, pela primeira vez o seu parceiro estava no comando, e sabia para onde estava indo.
Já era noite quando chegaram a um pobre bairro residencial, começava a chover, talvez viesse uma forte chuva por aí.
Ao chegar na casa com um muro mediano. Uma mulher já estava à espera dos mesmos. Ela abraçou aquele homem, a quem deu o título de seu amigo. Sabendo que os encontrariam saiu de casa e ficou num buraco que havia no muro. Tinha o espaço suficiente para ver o que acontecia na rua. Com pouquíssimo movimento a atividade era monótona, a única coisa em movimento era a chuva quando passava pelas lâmpadas amarelas da rua, só neste momento era possível vê-las.
Depois de esperar por duas horas o frio começava a afetá-lo. um carro parou na ponta da rua, e dele desceu um homem com mais ou menos 50 anos carregando o que parecia ser um rifle. Ele estava certo em vigiar, sim eles voltariam. Correu para dentro da casa, apenas para se despedir do seu amigo e da sua família. Com certeza não era mais possível sair pela frente. Foi para o muro traseiro que levava à outra casa. Além das ruas iluminadas, todo o resto era escuro e sem vida. Saiu pulando de casa em casa, por dois quarteirões. Sua fuga perecia silenciosa. Parou na frente de uma venda, esperou uma mulher entrar quando a acompanhou. Ela o entregou dois pães e algo para beber. Ele agradeceu e saiu, sem antes ouvir o pedido de que não voltasse mais.
Para evitar qualquer coisa continuou sua fuga andando pelos muros das casas por mais onze quarteirões. Sentindo-se mais seguro caminhou por vielas com os olhos lagrimejando. Sentia uma tristeza profunda, mas não sabia do quê, fugi, mas não sabia do quê. Vivia mas não sabia o porquê.
Roubou um carro e foi pela inter-estadual, dirigiu a noite toda, pensando, refletindo e querendo descobrir quem era, o que fizera, qual o seu futuro. Já na capital do outro estado abandonou aquele carro e algumas quadras depois roubou mais, e com este dirigiu o dia todo cruzando dois estados.
Na madrugada, o sol já nascia, e o sono o consumia, passava por uma estrada estreita cravada numa montanha. Do seu lado esquerdo o mar, antes um abismo. A leveza do bater das asas de uma borboleta e a agressividade de um tubarão, ele foi atingido pela direita do carro. Foi só um golpe que o empurrou para o abismo. Não viu o carro direito, mas sabia que era grande, talvez uma carreta.
Durante a queda livre para o abismo ainda deu tempo de olhar para o mar, sentiu uma paz ao ver poder tocar a calmaria do silencia que não teve durante toda a sua vida. Ainda era possível ver a linha do horizonte, onde o céu se perdia no infinito.
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