segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Os outros que me perdoem, mas meu avô é fundamental


Quando o avô de um colega nosso aqui da revista Esquina faleceu este ano surgiu a proposta de cada um escrever sobre o patriarca de sua família, ou das duas. Infelizmente só tenho um. Mas graças a Deus ele vale por milhões, e não estou mentindo. Eu realmente sinto muito pela perda do meu amigo, e quando digo isso não é aquele velho clichê de filme americano, é sentir mesmo, e ter uma ideia do que ele sente.

Eu sou um órfã de família materna. Graças a Deus tenho a minha mãe, e só. Há alguns meses morreu uma tia, que na verdade era prima dela, porém era mais presente do que qualquer irmã. Mesmo longe ainda choro quando a lembro, não só pela pessoa que sei foi, mas um imaginário de família que existia em mim. Eu nunca tive um avô por parte de mãe, mesmo antes de ser um projeto – sim, a minha nega tem muita história para contar, quem sabe no dia das mães – minha mãe nunca chegou a conhecer o seu pai, e hoje tem mais de sessenta anos. Na verdade após nascer ela foi dada pela mãe para que uma tia criasse. Na sua história ela teve duas mães e uma tia. A Madrinha morreu um pouco antes de eu nascer; a Mãe Cota, que está viva até hoje, vive em São Paulo, mas não tem condições de vir para cá, nem nós de trazê-la e a Tia Lia. Esta última foi quem a gerou, as outras duas a criaram.

Por esse motivo eu só tenho um avô para falar aqui, entretanto é um dos meus grandes orgulhos.






Minhas irmãs e meus primos que me desculpe, mas sou o favorito

Josias Antônio de Andrade, junto com minha avó e os meus pais brilham no Olimpo que criei para mim. Não me pergunte sua idade, pois não saberei, posso ir até a sala e perguntar ao meu pai, e após ele fazer os cálculos me dirá o que eu já sabia. Não importam os números, basta saber que são o suficiente. A maior riqueza que a idade traz para os grandes homens é a sabedoria e a serenidade. Não confunda sabedoria com inteligência. Eu conheço muitas pessoas com o QI nas alturas, mas completos imbecis. A sabedoria é a mais completa das qualidades, é saber fazer o que fazer e quando fazer, mais que isso, ter consciência do motivo de agir de tal forma ou não. Mas tudo bem, vou deixar de encher linguiça e vamos aos fatos.

Eu nasci em São Paulo, mas ainda muito cedo vim para o RN, e por um ano fui criado pela minha família paterna, enquanto minha mãe preparava as coisas na terra da garoa para encontrar o seu pivete. Daí vem a forte ligação minha com os meus avós e alguns tios, pois por um tempo eles foram os meus pais, e exatamente naquele período mais fofo que qualquer ser humano pode ser: enquanto se é uma criança arteira.

A história do meu avô é datada de beeeeeeeeeem antes disso. Ainda entre o sertão potiguar e o paraibano, ele acabou conhecendo a minha avó, uma garotinha bem sex, o homem que na época era um rapaz respeitador fez tudo como diz as tradições sertanejas e pegou aquela moça para trilharem juntos suas vidas até os dias atuais. Um cuidando do outro até hoje, vocês tem de ver, a coisa mais linda. É cada grito que dona Socorro dá em seu Josias. É um “Ohhhhhhhh Josiiiiiiiiiiias”; “Mas eu não acredito nisso não. Parece um menino novo”, é muito fofo, tanto amor que não vejo igual nos dias de hoje.

O tal Josias sempre foi um homem do campo, e sempre ao lado do pai Antônio aprendeu a lidar com o campo e com os animais – os parentes tem dúvidas de  com quem sou mias parecido, se com meu avô ou bisavô – devido a umas péssimas negociações no decorrer da vida as posses do meu bisavô foram se acabando, se acabando até que ele morreu numa pequena casa em Parnamirim, longe da terra que sempre o acompanhou, e após sobreviver a duas tromboses, e sem condições de fazer sozinho suas necessidades fisiológicas. Mas em durante estas escolhas meu avô acompanhou seu pai, e mesmo sofrendo e discordando de algumas o seguiu.

Uma das coisas que eu puxei do coroa é a capacidade de sofrer sozinho, até o máximo. Mas quando chega o limite, é o limite e foda-se o resto. Nem tudo está bem quando parece bem, e não estava com ele. Mesmo respeitando o pai e o seguindo em suas escolhas, mudando de uma fazenda onde tinha água, para outra sem, e depois outra onde os animais morreram, ele viu os seus filhos sofrerem. Os barrigudinhos de cabeça chata estavam sempre com ele, e principalmente um careca, de cabeça chata, barrigudinho e dos gigantes olhos verdes. Ok, meu pai não era careca naquela época. Meu pai era o filho carrapato, onde quer que vovô fosse lá estava ele, e ele chegou a ver algumas coisas, só de imaginar meu coração já aperta. Imagina se já é difícil ver o seu pai chorando devido às difíceis condições que a vida lhe impõe, então o quão pior é você desabar na frente do seu filho. Vale lembrar que estamos falando de um homem do sertão, um cabra macho.

O que levou Seu Josias derramar essas dolorosas lágrimas, foi uma situação mais dolorosa ainda. Minha bisavó era uma pessoa não muito amorosa, e um dia enquanto preparava a mesa para o almoço, meu pai e meus tios chegaram perto, a fome falou mais alto que a educação fazendo-os pedir um pouco daquela comida, este erro lhes custou uma resposta grosseira de que a comida se destinava aos trabalhadores e não a eles. – NOTA: Seus primos tinham o direito à tudo – após o acontecido, meu avô pegou os filhos e foram para casa, chorando, só de escrever isso meus olhos ficam marejados. Com o tempo toda a relação foi se desgastando e o amor aos filhos falou mais alto. Chegou a hora de romper com o pai, e seguir a sua estrada sozinho.

Com o tempo ele chegou à Vera Cruz – RN, onde vive até hoje.

Agora é de fato a parte da história em que entro, hoje já não tem tanta graça para mim, mas no passado Vera Cruz era o paraíso. Nesta parte da minha infância meu avô trabalhava na feira da cidade vendendo carne. E é daí que tenho a mais curta e entre as mais gostosas lembranças da minha vida. É a memória minha brincando com um daqueles caminhões de plástico que tem umas vacas na sua carroceria, eu estava escondido em um lugar e sentando no chão quando uma mão tirava uma lona sobre mim e um rosto sorria para mim. Pronto, esta é a minha lembrança. A sua explicação é que quando meu avô ia trabalhar na feira eu ia com ele e ficava brincando sob a barraca, ele costumava comprar balas e brinquedos para mim. Não sei o motivo exato, mas eu era extremamente feliz, e tenho certeza que qualquer estudo do IBGE me classificaria como uma criança em situação de risco. Mas eu correria estes “riscos” milhões de vezes para ter aquela felicidade tão natural outra vez.

Até onde eu sei não existe uma fotografia desta situação, mas existem duas outras que contam histórias bem interessantes. No alto dos meus 3 ou 4 anos, eu não lembro direito, enquanto meu avô fazia a faxina do terreiro eu pegava uma vassoura e ficava brincando de astronauta. Girava e girava ficava tonto com uma vassoura na mão. Muito idiota eu, pois astronautas não são faxineiros, eles não vão à lua tirar a poeira do espaço, eles também não saem por aí, na superfície lunar totalmente despidos com as bolas de fora, e muito menos vão para o espaço apenas ficar doidões e tontos.

Em outro momento eu era mais velho, e o que lembro foi que subi – na verdade escalei, mas sou modesto – num fusca que tinha na oficina do meu pai (malditos fuscas da minha vida), e fui até o teto apenas... APENAS PARA PEGAR UM CAJÚ E COMER! Sério, caju nem é tão gostoso assim.

Após este período segui com os meus pais para uma nova fase em nossas vidas, passei alguns anos em São Paulo, até os acontecimentos de 1999, que nos trouxeram de volta, e eu fui passar um ano com os meus avôs enquanto meu carequinha lindo do bigode grandão e os já tradicionais grandes olhos verdes preparava as coisas para retomarmos as nossas vidas.

Minha avó fazia os uniformes para a escola estadual da cidade onde eu estudava, então com o fardamento eu não tinha problemas, costumava acordar cedo, quase que no mesmo horário que meu avô acordava para ir ao roçado, eu me arrumava e ficava na varanda, olhando o terraço, até a hora de ir para a escola. Coisa de uma hora, uma hora e meia sem fazer porra nenhuma. Eu o via preparar as coisas na sua Monark vermelha, e seguir para a lida.

Eu fui muitas vezes com ele para o roçado. Eu aprendi a andar de bicicleta em São Paulo, mas foi em Vera Cruz que a magrela se tornou algo tão ideal para mim. Foi com ela que andava quilômetros mato adentro até chegar ao roçado dele. Um homem ainda velho tinha a força que nenhum rato de academia jamais terá. Ele era magro, e branco, porém sua pele estava manchada pelo sol, nesses dias quentes eu aprendi a plantar feijão, maniva, milho, arar terra, colher, limpar o mato, e por aí vai. Eu era apenas uma criança, mas eu me divertia demais. Era muito bom. Poucas pessoas sabem disso, mas eu realmente gostava daquilo, como também gostava de quando ajudava meu pai na oficina, mas isso é outra história.

Em uma dessas idas ao roçado a água acabou, e não havia sinal de água por perto, mas o meu avô era tão esperto que foi a um roçado vizinho – quero deixar claro à polícia que esta parte eu não lembro direito, então não vale como depoimento ou algo para incriminar o meu velho – e pegou umas duas melancias, com uns socos as abriu e tomamos daquela água.

Um dos grandes momentos de conversa era quando ele contava uma piada. Aqui vai uma típica:

“Um dia eu estava na varanda da casa do meu pai, e ouvi lá longe um barulho muito forte. Eu não liguei muito, mas ele se repetiu mais forte. Eu peguei a espingarda e fui procurar o que danado era aquilo. E enquanto eu seguia, mais forte ficava o barulho. Chegou um ponto que era de deixar um moco. Notei que a fonte dele estava detrás de uma moita. Eu me aproximei e quando estava perto tirei o mato da frente.

Após ver o que era fiquei mais calmo, pois era apenas uma cobra batendo a pestana”.

Hoje ele ainda vive em Vera Cruz, mas ele está passando por uns mal bocados, outro mal que herdei dele, pois ele sofre de depressão, não come direito e vive se lamentando das dores e principalmente da incapacidade de fazer o que costumava fazer. É compreensível um homem forte como ele ser alcançado pela idade, e incapaz de fazer coisas que eram simples para ele. Eu sei que os avôs mundo afora tem belas histórias, enchem os netos de orgulho pelo que conquistaram, com sinceridade não quero falar que o meu é melhor. Meu avô me enche de orgulho pelo que ele é, e um dos meus maiores medos é perder o seu sorriso tímido e safado sob aquele bigodinho fino e branco.

Eu te amo Seu Josias.

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