segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Dentro do movimento, vi o que todo mundo viu, mas acho que conto o que ninguém contou


“Clebão seu merda, eu vou quebrar a sua cara, filho da puta.”


Quando o seu dia começo com você tendo um pau com uma das pessoas que você mais ama pode ter certeza que ele vai ser uma grande... Ok, bem que poderia ser uma “grande merda”, mas não foi, tenho quase certeza que perdi metade do meu sangue, ele foi trocado por adrenalina, e o que circulava em mim é só a maldita adrenalina, e olhe que eu não estava caindo de um avião.

Eu sei que essa matéria é sobre o protesto contra o aumento da passagem, mas se eu omitir todo o contexto do meu dia vai ficar totalmente sem graça, pelo menos para mim. Para facilitar a sua vida, que é um preguiçoso eu vou deixar uma retranca quando começar a parte do protesto, mas que se dane, o texto é meu e eu escrevo o que quero.

A porcaria da música que tá tocando aqui não me faz bem, eu devo confessar isso. Na verdade elas nunca ajudam.

Sim, voltando à pauta. Eu gosto de trabalhar onde trabalho, pessoas maneiras, e boa oportunidade de aprender. Tudo o que um cara como eu deseja. A única coisa que me deixa triste é o salário, mas neste país quem está contente com o salário? Até juízes, ministros, senadores e deputados vivem insatisfeitos com os seus. Dentre as pessoas que trabalham comigo está Marcelo. No protesto de quarta-feira ele foi, e quase perdeu a visão com uma bomba que explodiu e seus fragmentos atingiram o rosto. Quando foi procurar pelo comandante da operação ele foi enquadrado e levado para a delegacia. Já nesta sexta-feira na sua volta à redação, para a nossa felicidade ele já estava bem melhor, mas era visível a ferida em seu rosto. Para melhorar tudo ouvimos sua música favorita: O clássico de Nissin Oufrari.



Fiz o meu trabalho da maneira como sempre faço, com muita procrastinação, um defeito que estou trabalhando nele, mas até este trabalho é procrastinado. Uma das melhores coisas de trabalhar com quem se gosta são as conversas, os segredos de empresas e afins. E para fuder de vez a minha manhã descobri algo realmente terrível, é lógico que não vou contar aqui. Mas o que mais me irrita é ver algumas pessoas manipuladoras e que sem caráter e competência galgam status, cargo e o diabo a sete em uma empresa. Algumas vezes a cara de bocó pode enganar os verdadeiros bocós. Mas eu acredito em Deus (dane-se se você não acredita), e tenho a certeza que essas pessoas serão fritas a pururuca no inferno. Só fico triste que para queimar tanta gente assim, o desmatamento total do inferno é quase certo.

O tempo estava chegando e eu iria de ônibus com Marcelo, mas o seu estrelato nas redes sociais rendeu uma entrevista piloto para a equipe do Xeque-Mate, só sei que o protesto começaria às 14h30 e saímos da universidade por volta das 15h40. O meu maior medo era perder o roçoi todo. Poderia falar que eu não queria ver o pau comer, mas a verdade é que eu queria, imagine as fotografias que eu faria? Imagine quantos policiais que gostam de bater eu não fuderia com as minhas fotos? E se eu ganhasse alguns ferimentos eu poderia usar para manipular quem quisesse, pois o pobre coitado levou um tiro. Existem experiências que são únicas, por isso o seu valor. Quantas pessoas podem dizer que levaram um tiro? Com certeza muito poucas, e é uma coisa tão única que só ela sabe. Digaí quando ele encontrar uma mulher falando que a dor de verdade é parir. Ele se apresenta e diz: você já levou um tiro? Seria um LIKE A BOSS BALEADO. Se a bala é de borracha ele corre menos riscos ainda, pois se for um tiro mortal ele se tornará um LIKE A DEAD. Só 50 Cent que levou vários tiros mortais e está aí para contar a história, esse aí é um LIKE A GOD BOSS AND ALIVE.

Descemos um pouco longe de onde eles estavam, e a concentração foi na prefeitura, mas eles já tinham andado demais. Depois de descer do ônibus em Petrópolis descemos para a Ribeira, no caminho quatro viaturas da polícia (não lembro se Patamo ou Choque) passaram correndo, enquanto já era possível ouvir o barulho dos batuques. Abri a chave das minhas veias e meti adrenalina nelas. Agora sim estava no protesto. Agora sim vou avisar que cheguei.



Alienados, loucos, baderneiros, manifestantes e eu.

A antiga rodoviária da Ribeira já estava tomada pelos manifestantes, realmente perdi muita coisa, mas a culpa toda era de Ruy. Despedi-me do meu colega e disse a ele para que me desejasse boa sorte. Agora não sei se foi com um pouco de medo de levar coro; dos filhos da puta quebrarem a minha câmera; ou boa sorte para fazer boas fotografias. Toda vez que chego a uma situação como esta eu tento me ambientar, saber me posicionar, de onde fazer as fotografias que ninguém fez. Na verdade não procuro bons lugares para fazer boas fotografias, pois estes lugares já estão ocupados pelos bons fotógrafos. Eu tenho de procurar um lugar onde eles não foram ou não imaginariam ir. E que também me diferencie de quem usa uma Sony CyberShot.

No meio daquelas pessoas pude ver alguns políticos, entre eles um de esquerda, o do PSOL. Não voto em Natal, e não sei o nome dele, só o que sei até o momento é que ele tem a cara do Tufão, de Avenida Brasil. Pode ter sido oportunismo estar ali, ou não também. Eu acredito num misto dos dois, mas ele também tinha direitos de estar, assim como eu e os vândalos que escondiam os rostos com tecidos. Se eu conseguisse olhar apenas para o rosto diria serem americanos dos filmes de velho oeste, como eu brincava quando criança. Mais tarde, eu sozinho, entenderia a motivação daquilo, para uns era não ser reconhecidos como líderes do movimento, e depois os policiais saberiam exatamente onde ir e quem pegar, os outros escondiam o rosto pois estava lá para fazerem merda e caso alguém fotografasse eles não poderiam ser reconhecidos. Após subir a primeira esquina, um destes mascarados chutou a porta de um ônibus e quebrou o vidro. Todos que estavam ao seu redor reclamavam enquanto apontavam o dedo para ele, talvez pensassem que ele seria punido pela maioria, mas assim como Micarla, Rosalba, os desembargadores do caso dos precatórios ele saiu imune. Até este momento! O seu nome é... Se eu soubesse não diria por questões de segurança. Mas era evidente o repúdio da maioria a esse tipo de ato, como também os pinxadores. O único pinxador que eu gosto é o do Coisas de Jornal, segundo fontes, ele era feito pela netinha do professor Emanoel Barreto.

Os pinxadores se apoiam da beleza que é o grafite, e disseminam suas ideias de forma autoritária como se os muros fossem páginas exclusivas deles. Talvez onde esse tipo de gente mora ainda não tenha chegado uma lan house, e eles não conhece uma coisinha nova, inventada um dia destes, algumas pessoas chama-a de internet. E nela você pode propagar suas ideias em blogs e afins. Ainda assim eles se acham foda, no dia que um deles for pinxar sem esconder o rosto, eu mesmo vou até ele e digo: Você é foda cara, tem um cacete de verdade.

Andei muito, muito mesmo, e isso para quem é sedentário, acorda todos os dias às 05h30 para ir ao trabalho, depois tem aula até às 22h e chega em casa tão cansado que não dá para comer nada, apenas desabar em qualquer superfície mais macia que o piso da sala. Minhas energias estavam se esgotando, o meu almoço foi como há muito tempo um suco e três salgados. É bem mais rápido e com essa dieta sempre sobra 50 centavos da grana do almoço. Sim, eu sei, uma mixaria, eu sei, eu sou um miserável, mas dane-se.

No caminho entrevistei algumas pessoas e tive de dar uma pausa em um posto de gasolina para abastecer. Comprei uma garrafa de água, e uma lata de Bohemia – ouvi um tiro? Acho que foi o meu médico se matando. O mais importante sempre vem primeiro nestas condições, por isso coloquei a garrafa de água no canto da bolsa e abri a lata.

Uma das grandes merdas de ser magro são as malditas calças. Parece que a força da gravidade age com mais força nestas desgraçadas. Toda vez que corria eu tinha de colocar a mão na minha bermuda para ela não cair. Eu perdi as contas de quantas vezes a minha cueca ficou à mostra, e minha linda bunda magra visível a todos.

Não sei como os outros fotógrafos trabalham, mas eu sempre estou correndo e andando, atrás e na frente onde está acontecendo alguma coisa eu estou. Ainda mais num caso como este, depois de quarta-feira, eu esperava pelo pior dos policiais a qualquer momento, até descerem de paraquedas no meio da manifestação eles poderiam fazer.

Com certeza a grande mídia não comentou uma das coisas que eu mais achei linda em toda a manifestação. O esforço para que as ambulâncias passassem, pelos meus cálculos foram seis, mas eu mesmo não confio nos meus cálculos. Eles são tão errados quanto os da polícia sobre a quantidade de pessoas em uma manifestação. Parece que aqueles homens entram na academia militar para perder parte do cérebro, pois a qualquer movimento sacam uma arma e atiram; não sabem discernir; conversar, todo o alfabeto brasileiro é um “desacato à autoridade”, e para os poliglotas o alfabeto grego também é.

Mais bonito que o esforço dos manifestantes abrindo espaço para as ambulâncias, com certeza era a presença das manifestantes, uma das poucas formas de eu perder a concentração durante uma fotografia é um belo rosto vindo em minha direção enquanto disparo a câmera. A quantidade de pinicas era enorme também, mas pode ter certeza que o movimento foi belo. E se parássemos o ônibus do quadro Garota Fantástica, perderíamos cerca de 20% do contingente de militantes.

As coisas estavam correndo bem, tirando a minha bermuda e cartões de memória fuleiros e comprados de última hora, eu estava tão tranquilo que poderia armar minha rede ali.

Entrevistei algumas pessoas, conversei com outras. Algumas pessoas não sabiam nem do que se tratava. Um senhor estava parado no meio da via quando eu pedi uma entrevista a ele. Com toda calma e um sorriso sem vergonha ele respondeu: meu filho eu não sei nem o que é isso, se você puder me explicar. Eu comecei a conversar com ele enquanto ele caminhava para o carro, após entender um pouco da situação ele clareou suas ideias e percebeu finalmente o que eu queria  “você quer minha opinião sobre o ato, né?” Respondi que queria, mas como o que ele acabara de saber era a minha opinião, não era justo. Ele agradeceu, e eu saí (Aprende aí emissoras de Natal! É assim que se faz, e não ouvir só a polícia). É evidente que um ato como este incomoda muita gente, mas a maioria das pessoas com quem eu falei apoiavam o ato. Para falar a verdade eu só vi uma pessoa contrária, mas essa terá um capítulo especial. Enquanto a manifestação passava pelas ruas pude perceber muitas pessoas em suas casas batendo palmas, ou funcionários em lojas. Já na Hermes da Fonseca as coisas ficavam mais tensas. E a conversa que rolava era que o Choque estava na Salgado Filho. Como eu não queria perder nada fui logo para a frente da marcha. Andamos muito, e durante todo o caminho na Hermes nem sinal de milicos. Chegando frente do Midway, e conversando com populares descobrir a existência de um ônibus repleto deles. Agora sim, eu poderia ganhar a minha fotografia ideal. Meus planos estavam expostos, estava ali apenas pela fotografia ideal. Ainda assim estava temendo a reação da polícia. Chamei um dos mascarados que mais cedo vi pinxando um ônibus, e o chamei para ir até onde a polícia estava. Ele negou covardemente, agora sim ficou claro que se tratava de um imbecil que carregava a bandeira do “Soy Foda”, mas não tinha saco roxo, suas bolinhas eram de pérolas.

Sem a companhia de ninguém segui sozinho mesmo para descobrir onde eles se preparavam. Enquanto alguns já se sentaram eu segui na Bernardo Vieira com destino ao CEFET (este é e sempre será o nome desta escola para mim, mas para vocês que não fazem ideia do que foi o CEFET podem usar IFRN), caminhei até a parada, no canteiro central tinha uma banca de salgados, onde parei para comprar uma água. Lembro-me que quando estudei ao lado, e nos piores dias financeiramente eu comia lá. O salgado custava 50 centavos, e o copo de refrigerante também. Com esse migué fiquei cara a cara com os policiais, na frente da igreja tinha um ônibus da polícia militar, e mais umas quatro viaturas. Na volta eu me senti um Moisés, depois que tinha saído para orar, e na sua volta o povo já havia construído um bezerro de outro para adorar. Encontrei uma confusão generalizada, eram líderes do movimento falando, enquanto uns poucos ouviam, alguns barravam o carro de uma professora que tentava furar o movimento, senti o cheiro de maconha no ar, garotos mascarados pinxavam ônibus. Uma zona. É engraçado ver alguns descompromissados com o movimento, ou então não tem noção da real razão, e é aí que quem tem intenção de ferir a imagem de qualquer movimento fazem a festa, afinal para dizer que só tem gente com merda na cabeça é pegar a sonora com uma pessoa que só tem merda na cabeça. Mas ok, os potiguares não consomem informações vendidas e parciais, eu que sou um bosta, escrevendo para este blog por não estar na grande mídia, além do mais nem sei escrever.

Agora que estou agredindo a mídia eu me lembrei de alguns outros que tentaram agredir uma equipe da InterTV, na verdade eu estava conversando com alguns populares quando vi a movimentação, corri e logo percebi o câmera saindo e a repórter o acompanhando, acuada pelos gritos, e alguns mais agressivos ainda tentaram bater na equipe (Estou falando só do que vi, então se bateram antes do que eu vi, me isento de qualquer coisa, se o G1 disse que eles apanharam, então apanharam), um magrelo, o mais incrível que ele era mais magro que eu, partiu para cima, mas acabou pego por outros manifestantes e tirados do local. Agora eu imagino se ele tivesse batido mesmo, o cinegrafista caído, a câmera fosse chão com ele, e começassem a pisar nela. Duas notas eu extrairia daí: 1º a equipe não teria imagens para fazer sua matéria, o que os manifestantes poderiam comemorar; 2º a equipe teria uma bela história de agressão para contar, o que os manifestantes poderiam reclamar, mas sem nenhuma razão. O que talvez aquela equipe não lembrou de contar na sua história foi que ela foi acompanhada para se retirar, um rapaz desconhecido, acompanhou os dois para que não corressem nenhum risco. Mas isso era possível esquecer, existe coisas mais relevantes para contar, do que falar da própria segurança.

Atrás de toda essa cobertura da mídia potiguar existe uma verdade que os manifestantes não veem, na verdade eles veem, mas dizem que “não podem fazer nada” – por sinal uma frase muito comum entre os secretários e ministro quando confrontados sobre as deficiências em seus serviços – eu mesmo vi um grupo de mascarados preparando molotovs, olhei para eles e perguntei que porra era aquela? Eles resmungaram alguma coisa ameaçadora que me fez sair. Percebi que as coisas estava prestes a sair do controle, e eu não sei se era medo, sim era medo, comecei a repeti diversas vezes que aquilo ia dar merda, muita merda. Após esta lamentável cena, eu vi outra, que não ajudou em nada a esquecer do baque anterior. Outro grupo de vândalos cercavam um carro da polícia, na verdade provocando, enquanto uma senhora com cabelos grisalhos tentava afasta-los, e aconselhava os demais a irem para casa, achei o conselho dela digno, e como um convicto cabeça dura eu recusei. Antes ela ainda me diria que um daqueles que protestavam até tentou agredi-la ou chegaram ao ato, ela era a idosa, mas sou eu quem não lembra ao certo. Só sei que queria ter um fuzil em minhas mãos para matar todos os desgraçados, ou então ter peito de aço para entrega-los aos policiais.

Nesse meio tempo encontrei uma sombra, um garoto com sotaque de paulista, novo, e juro que não perguntei o nome, ele me ajudou em muitos momentos, sugerindo bons lugares para fotografar, subir em muretas, e até viu minha bolsa aberta quanto tentaram me roubar. Antes disso eu fui conversar com mais pessoas, conversei com uns motoristas de ônibus, só para tirar uma dúvida com eles, afinal, eles tinham parte em todo o processo, e eles não estavam muito felizes com as condições de trabalho, os salários, e principalmente com o sindicato, pois segundo eles os seus representantes já tinham se vendido aos empresários. Eles também reclamaram que seus direitos trabalhistas não eram respeitados, os horários de trabalho eram uns, mas o que era descrito para o ministério do trabalho era outra coisa. Eu concordo contigo, não entendi nada, mas eles não estavam muito felizes.

Eles pediram para ver se tinha como passar, pois naquele ponto (Avenida Bernardo Vieira, com destino à Zona Norte) só tinham os três ônibus e nenhum outro carro, eu disse que mesmo que quisesse – eu queria – eles não passariam, os outros dois mil não apoiavam a minha ideia, disso tinha certeza. “Dois mil”, essa foi a média que eu fiz, com certeza a polícia diria que é menos, uma coisa que eu detesto no jornalismo é você sempre ficar preso aos dados oficiais. “A polícia disse haver 400 pessoas no ato”. Filho da puta tu é cego? 400 pessoas não é nem uma turma de C&T! Não é porque a polícia disse que são quatrocentos que você não é capaz de VER se é verdade ou não, mas ok, eu não sei contar, vamos voltar aos fatos.

Sugeri aos motoristas que eles dessem ré, e voltassem para a outra avenida, antes eles foram falar com os fiscais do outro lado, segui com eles e passei na frente de cerca de 100 policiais. (Uma pequena aula de como se conta: Primeiro você começa no mais fácil, eu vi um ônibus e 4 viaturas da polícia, se você fizer a média tem mais ou menos 100 pessoas). Quando estava chegando à outra esquina vi um carro do Choque virando em minha direção. Sinceramente acredito que eles estavam apenas fazendo uma “ronda”, mas eu estava sozinho, e não queria entrar para as estatísticas como o preso da noite. Corri como um louco, e não olhei para trás, talvez nem tivesse motivos para correr, mas não queria pagar para ver, quando finalmente me senti seguro, eu senti a pressão baixando, mas logo retomei e segui, sorrindo é claro, foi quase que uma overdose de adrenalina.

Lembrei-me que não tinha feito nenhuma fotografia dos policiais e decidi voltar para fazê-las, desta vez fui com o meu novo escudeiro. Enquanto fotografava os manifestantes seguiam em direção ao Natal Shopping, pensei, agora sim, vai rolar um cacete, e eu terei boas fotografias.

A essa altura os congestionamentos deveriam estar enormes, mas sinceramente, se o motorista não sabe, a rua é de fato pública, e não estou falando o velho clichê. Ela é do povo, a diferença é que nenhum doido vai querer andar nela enquanto os carros seguem guiados por loucos, então não reclamem se um grupo e pessoas resolveu dar um rolé por um lugar que é seu de direito. A imprensa também não está ciente disso.

No alto do Portugal Center, na esquina conhecida por mim, como “Esquina Maldita”, eu dei esse nome há uns meses atrás, e por motivos particulares. Um motorista que não sabia da regrinha básica que eu disse há pouco, saiu arrancando e acabou atropelando uma garota. Ela ficou no chão, enquanto outros procuravam socorrê-la um grupo de pessoas chegavam muito perto para ver, entre elas eu, mas eu era um jornalista e tinha meus motivos. Como não vi sangue nem tripas para fora segui em frente, ela ficaria bem. Estava caminhando, e já cansado, até o destino, com uma pequena pausa na passarela para fazer algumas fotografias aéreas do movimento – depois de subir eu continuo achando que tinham mais de 400 pessoas, fica a dica, que tal subir em uma passarela? – A melhor política do grupo de abrir caminho para as ambulâncias passarem se mantinha, eu achava maneira e toda vez que elas passavam os manifestantes comemoravam como se fosse um gol. Pensei por um momento o quão bom deveria ser motorista de ambulância! Nunca terão problemas com congestionamentos e afins. Melhor que isso só ser motorista de ambulância no GTA.

Quando estava no viaduto da UFRN vi uma bela cena, o único cadeirante do protesto, Francisco é seu nome, estava sendo carregado por seu amigo Felipe. Eles estavam bem na frente da multidão, e aproveitavam o espaço para se divertirem um empurrando a cadeira do outro enquanto gritavam “A BR é nossa!”. Tenho a certeza que eles não falavam das 400 pessoas que os seguiam, mas deles mesmos, e naquele momento ela era mesmo. Ziguezagueavam e corriam, detalhe eles não cobriam os rostos.

Quando a enorme caminhada parou na frente do Natal Shopping eu procurei um bom lugar para fazer fotografias, como também procurava por policiais. Como dizem a esperança é a última que morre, ou então é espancada. Vi alguns bons cidadãos cansados de esperarem, e faziam um retorno pelo canteiro central. Não tiro do direito deles, afinal os canteiros também são públicos, né?!

Decidi fazer umas mais fotografias aéreas, eu estava muito cansado de andar, acordado desde às 05h30 eu estava no meu limite. Enquanto subia, vi a última ambulância passar, desta vez não fui o único a ver, todos os que viram aprovaram, e a prova do que estou dizendo é isso: “Clap! Clap!” (O som das palmas de todos).

Em uma assembleia feita naquela mesma hora decidiu-se por parar as atividades ali, e reencontrar todos na terça-feira. Mas antes de tudo, deveriam fazer um roletaço para chegarem em suas casa. Eu vi as negociações, as que eu vi foram pacíficas, alguns motoristas liberaram, outros com medo de perderem o emprego, se recusaram. Eu os compreendo, já perdi alguns.

Já estava cansado o suficiente quando o B passou. A pior empresa de transporte de todo o mundo. Definitivamente não perdi a chance de pegar um B, que a passagem custa quase 3 reais. Entrei e a minha cobertura acabou por ali.



As coisas só acabam quando acabam

Ao entrar no ônibus, subi com mais um garoto e uma garota, todos mais novos que eu. Eu fui sentar no meio, enquanto eles logo mais atrás. Logo ouvi os gritos de uma senhora com aproximadamente 30 anos, xingando todo mundo. Sinceramente, eu tenho 22 anos, acordo às cinco e meia da manhã, para ir trabalhar e ganhar 350 por mês, e no final de cada um sobrar menos de 60 reais, para eu comprar alguma coisa para mim, chego em casa pouco antes das onze horas.

Eu não posso aceitar que me chamem de vagabundo.

(neste momento, enquanto escrevo, uma carreata destes malditos políticos de Parnamirim, cadê a polícia nestas horas para prender alguns delinquentes?)

Ela falava coisas movida pela ira e ignorância, reclamava que uma das pedras quase atingiu um garoto dentro do ônibus o que eu lamentei muito. Enquanto “conversávamos” ela expos todo o seu orgulho por ser uma pós-graduada e nunca ter precisado sair às ruas para nada. Infelizmente eu tenho meus motivos, quem paga a minha passagem sou eu, e quando não posso é o meu pai. E eu realmente sei o que ele rala nesta vida e o que já ralou.

Não sei o que ela queria dizer quando falava de vagabundo, e da sua história de vida de sucesso. Mas eu já trabalhei na oficina do meu pai, já fui para roça, e sei o que estou falando quando digo que sei o que é ralar.

Mas como sou legal vou me colocar no lugar dela... Se ela é tão “foda” em ter feito uma pós e trabalhar, e ter sucesso... Eu me pergunto o que faz uma senhora dessa dentro de um ônibus? Talvez na hora eu estivesse um pouco quente para entender isso.

Toda a educação adquirida por ela nesses anos foi abaixo pouco antes de sair do ônibus, quando nos chamou de “imbecis”. Aí não me segurei, é demais para mim, vagabundo ainda vai, mas olhar do lado de olho, e me chamar de imbecil? Quem ela pensava que eu era? Seu pariceiro? Seu pai? Neste momento só lembrei do artigo de Rafael Duarte, e soltei um sonoro “Cavala”. Sinceramente, me senti orgulhoso com o adjetivo usado, pois ele era dupla face, e servia para duas coisas: Educação, e fisicamente.

No ônibus ainda tinham outras pessoas, porém bem mais educadas que ela, um senhor ao meu lado e outro na minha frente, conversamos, confessei as deficiências do movimento devido aos marginais, que se eu tivesse porte físico pisaria na cabeça de todos eles. Também falamos sobre política, histórias de vida, só não falamos de futebol, mulher e religião. Confesso que aprendi mais com os dois do que poderia aprender com 70% dos manifestantes; 60% dos policiais; 80% dos jornais; e 98% daquela mulher, pois mesmo sendo bonita e com um belo corpo ela me parecia muito frígida para poder saber de outras coisas.

Acabei errando a parada, mas antes de descer eu pedi desculpa aos passageiros e ao motorista pelo incômodo, porém garanti a necessidade. Desculpei-me pessoalmente com o rapaz que levaria uma pedrada, e desci.

Ainda peguei um moto-taxi que custou dois reais. No final das contas saí no prejuízo, pois com a passagem custando 2,80, e eu pagando estudante seria 1,40, mas tudo bem! Valeu o pau com a mulher.



A grande ironia da vida

Cheguei em casa acabado, andei kilômetros e kilômetros protestando contra o aumento da passagem do transporte público, enquanto vivia as coisas para contar aqui. A maior surpresa ao chegar em casa foi a correspondência do Detran, a qual trazia minha carteira de motorista. Vai entender a vida e suas ironias, né?!

Nenhum comentário:

Postar um comentário